O Positivismo, os animais, a hipofagia e as touradas.

 

 

O Positivismo, os animais, a hipofagia e as touradas

12.XII.2011

 

 

                    Arthur Virmond de Lacerda Neto

 arthurlacerda@onda.com.br

            I –Os animais, irmãos do homem. Moby Dick. Festa dos animais.

            Fundador do Positivismo, Augusto Comte foi pioneiro ao afirmar os animais superiores zoologicamente (o cavalo, o cão, o boi) como colaboradores da Humanidade e os deveres desta para com os animais em geral.

      Ao conceito de Humanidade (conjunto contínuo das pessoas que contribuíram para o desenvolvimento social, nos diferentes tempos e lugares) propôs que se adicionassem  os  animais que cooperam com o ser humano, no exercício de certas das suas atividades, máxime no passado, como a agricultura, em que o cavalo tirava o arado; as comunicações e os transportes, em que também o cavalo puxava a diligência; o cão,auxiliar da polícia na investigação dos crimes, mercê do seu faro apurado. Antes do advento da mecanização, inúmeras atividades dependiam do esforço animal, ou, quando menos, ele as incrementou decisivamente, ou seja, durante todo o passado, até cerca de século e meio atrás, a atividade animal, dirigida pelo homem, contribuiu significativamente para o melhoramento da condição humana.

             Comte exprimiu, no seu Catecismo Positivista, que se deve “acrescentar ao novo Ser Supremo [a Humanidade] todos os seus dignos auxiliares animais. Toda cooperação útil habitual nos destinos humanos, quando se exerce voluntariamente, erige o ser correspondente em elemento real desta existência composta, com um grau de importância proporcional à dignidade da espécie e à eficácia do indivíduo. Para apreciar este indispensável complemento, devemos supor que ele nos falta. Não se hesita, então,em encarar tais cavalos, cães, bois, etc., como mais estimáveis do que certos homens”.

            O Positivismo, afirmou o seu fundador, “estenderá convenientemente o sentimento fundamental da fraternidade universal a todos os seres que merecem a investidura humana”[1], sendo que os atos de crueldade e os hábitos de indiferença em relação aos animais expõe [os seres humanos] a uma inteira desmoralização”[2], ou seja, a um decréscimo na sua moralidade. Ao contrário de crueldade e de indiferença, “o devotamento dos fortes aos fracos deve estender-se até os menores seres suscetíveis de simpatizar com as nossas afeições e de concorrer com as nossas atividades.”[3] Reputando os animais como auxiliares da Humanidade, o Positivismo preconiza aos indivíduos responsáveis pela sua exploração econômica “fazerem prevalecer dignas simpatias pelos nossos irmãos [zoologicamente] inferiores”[4].

            A Humanidade, concepção que o Positivismo substitui à de deus, corresponde a “um ser coletivo, ou seja, um ser composto que possui por atributos a solidariedade e a continuidade de todos os elementos que a constituem, de todos os agentes suscetíveis de concorrer para  a sua formação no passado, a sua manutenção no presente e ao aperfeiçoamento da sua natureza física e moral, e da sua situação terrestre. A humanidade compreende, então, o conjunto dos seres humanos passados, presentes e futuros, porém conjunto não quer dizer todos. Pois se todos os homens nascem filhos da humanidade, nem todos tornam-se os seus agentes ou servidores. Os criminosos, os inúteis devem ser rejeitados do seu seio e convém, ao contrário, associar-lhe os animais sociáveis, que são os melhores colaboradores do homem e ajudam-no, poderosamente, a melhorar o seu domínio da Terra. Quem poderia desconhecer os imensos serviços prestados por estes animais, na obra da civilização?”.[5]

            “O Grão-Ser [a Humanidade], deve compreender não apenas todos quantos veneramos, como, ainda, todos os seres sensíveis em relação aos quais temos deveres e que tem direito ao nosso apego. Por isto Comte incorpora ao seu objeto ideal [a Humanidade] que, segundo a lei da vida, devemos servir, não apenas a nossa espécie exclusivamente, como, em uma categoria inferior, os nossos humildes auxiliares, as raças animais que formam, realmente, sociedade com o homem, que se lhe apegam e voluntariamente cooperam com ele, como o nobre cão, que dá a sua vida por seu amigo e benfeitor de raça humana. Comte foi, indignamente, ridicularizado por isto; contudo, nada há de mais verdadeiro, de mais honroso para ele em todo o conjunto das suas doutrinas. O vivo entendimento que ele mostra, sem cessar, do valor dos animais inferiores e dos deveres do gênero humano em face deles é, na realidade, um dos mais belos traços do seu caráter”. [6]

            Vários positivistas brasileiros adotaram o vegetarianismo: evitavam de alimentar-se com animais mortos com dor. Era o caso de Teixeira Mendes, expoente do Positivismo brasileiro e autor da bandeira republicana, em que inseriu o lema positivista Ordem e Progresso. Teixeira Mendes usava sapatos de sola de borracha, que não de couro, devido à origem animal deste.

            Preocupado com a educação das pessoas, A. Comte formulou um rol de livros destinados à leitura habitual, a Biblioteca Positivista, composta por obras de filosofia, ciência e literatura, em que incluiu, na seção literária, poesias e romances de alto valor humano, a exemplo de Gil Blas de Santilhana (de le Sage), A princesa de Cleves (da senhora de Lafayette), as obras escolhidas de Goethe e de Byron, alguns romances de Walter Scott, a Ilíada e a Odisséia, a Divina Comédia, obras de Ovídio, Tíbulo e Juvenal, Dom Quixote e outros.

            Desconheço se Comte leu Moby Dick, de Hermano Melville (publicado em 1851) ou se, ao menos, teve-lhe notícia. Possivelmente não; seja como for, jamais o recomendara: trata-se de livro defeituoso na sua execução e imoral no seu conteúdo.

            Ele é defeituoso porque há romance nos seus capítulos iniciais e finais, ao passo que os muitos intermediários ocupam-se com descrever a organização dos navios baleeiros e a sua atividade venatória[7]. Será instrutivo para quem se interesse pela caça balear; é insignificante como narrativa de situações humanas.

            Ele é imoral se se considerar como critério da moralidade a preferência dos bons sentimentos aos maus. Ora, o protagonista, capitão Ahab, procura a baleia Moby Dick no intuito exclusivo de matá-la, por vingança (ela mutilara-o, ao arrancar-lhe uma perna, que ele substituiu por uma prótese óssea) e não para caçá-la e aproveitar-lhe as vísceras, como é próprio de um baleeiro, ou seja, o motor da personagem consiste no ódio, no sentimento destruidor de hostilidade pessoal ao bicho que o atacou em defesa própria, ao ser golpeado, durante a caça. Tal se agrava com a descrição de Ahab como monomaníaco no seu afã vingador, vale dizer, como um desequilibrado.[8]

            Em Moby Dick inexiste nenhuma atitude nobre e digna, em nenhum dos seus personagens; há uma de egoísmo e insensibilidade do seu protagonista, em face de uma pessoa (o capitão do Raquel) e um motor odiento, também do protagonista, em relação a um animal (Moby Dick). Eis porque ele não é recomendável como leitura de edificação, mercê da natureza negativa do protagonista.[9]

            No intuito de enaltecer as principais fases da evolução humana (dinâmica social) e os elementos que constituem as sociedades (estática social), A. Comte elaborou um plano de festas, a se verificarem ao longo do ano, que dividiu em trezes meses e que consagrou, cada qual, a um elemento da estática ou da dinâmica.  Dedicou o sétimo mês ao feiticismo[10], modo de entendimento da realidade em que os homens primitivos atribuíam vida, semelhante à sua própria, aos objetos e aos fenômenos da natureza. Nele, um dia destina-se à festa dos animais, em que se exalta o seu papel de colaboradores da Humanidade.

            Nenhuma outra doutrina, religiosa nem filosófica, reconheceu nos animais o papel que lhes atribui o Positivismo, que os associa, como irmãos inferiores, à própria Humanidade, como seus coadjuvantes e como merecedores de fraternidade, devotamento e gratidão. Para o Positivismo, de certa maneira, os animais também são humanos[11].

            II- A hipofagia.

 

            Emerge, atualmente, a preocupação com os “direitos dos animais”, de que o Positivismo comunga e que enuncia como os deveres da Humanidade, em relação aos animais. 

            Os direitos equivaleriam a prerrogativas que os indivíduos poderiam exigir dos demais, vale dizer, um dado tipo de comportamento em cuja exigência se reconhece legitimidade e que existiria por inerência, como se se tratasse de realidades objetivas[12]. Assim, por exemplo, dada a existência do ser humano, existiria, por si, o direito à vida, como atributo próprio dele. Tal concepção apresenta caráter metafísico, na medida em que imagina a realidade, ao invés de observá-la.

            A observação da realidade conduz à conclusão de que todo direito corresponde a um produto cultural e exprime um estado da mentalidade em que  prevalece.

            O Positivismo recusa o conceito metafísico de direito e o substitui pelo de dever, que, por sua vez, resulta da obrigação moral de cada um reciprocar à sociedade o quanto dela recebe: recebe-se todo o estado de civilização existente no momento em que se nasce, do qual se usufrui ao longo da vida. Assim, o Positivismo reconhece deveres para com a Família, a Pátria e a Humanidade, que incluem os relativos aos animais: os de bem tratá-los e protegê-los, o que importa em uma atitude de natureza moral.

            No âmbito desta atitude de natureza moral, Eugênio Robinet, positivista da primeira geração, repudiou, de público, a hipofagia (alimentação com cavalos), que combateu mediante a sua consideração pelos lados “social e moral, ou seja, pelos efeitos que ela pudera exercer sobre os costumes públicos e privados”. Redigiu as suas ponderações sob a forma de três cartas, que publicou em separata e na gazeta Abelha Médica, dirigidas ao dr. Blatin, um dos diretores da Sociedade Protetora dos Animais, que se manifestara, de público, a favor da reintrodução da hipofagia, e ao dr. Antonio Bossu, redator-chefe daquela gazeta[13].

            Na primeira missiva (de 4 de maio de 1864), destinada ao dr. Bossu, pergunta-se o dr. Robinet: “Por que o homem não come mais o cavalo?”. Passa à resposta: “Não foi, parece, que se cessou de consumir a carne de cavalo porque ela saiba absolutamente mau ou seja má ao estômago; porém, à medida em que o homem afastou-se do estado selvagem, ou seja, da situação primitiva em que, carnívoro esfomeado, devorava toda presa (mesmo o seu semelhante), o homem, cada vez mais, propiciou a sua proteção e certo respeito às espécies animais que, assaz vizinhas de si próprio, partilhavam da sua existência doméstica ou pública. Foi assim que o cavalo, em todas as sociedades um pouco desenvolvidas, chegou a não mais nos servir à alimentação. Foi, então, pela repugnância fundamentada na cooperação deste nobre animal, nos seus serviços diários, nas suas qualidades intelectuais e morais, por vezes tão desenvolvidas, que o homem foi conduzido a não o devorar mais e a propiciar-lhe, como recompensa pela sua indispensável assistência, uma espécie de direito à sepultura”.

            Prossegue: “O que caracteriza e resume toda moral, abstração feita das idéias filosóficas empregadas para estabelecer-lhes o sistema, é a preponderância dos sentimentos benevolentes sobre os sentimentos egoístas no comportamento humano, quando o apego, a veneração e, sobretudo, a bondade, inspiram-nos as ações e submetem-lhes à influência habitual a cupidez, a violência, a sexualidade, a vaidade e o orgulho que nos dominam tão naturalmente. Tudo quanto há de belo, de bom, de justo na Terra provêm, pode-se afirmá-lo hoje, desta fonte generosa colocada no coração do homem e todos os esforços de uma orientação esclarecida devem tender, pela educação privada e pelas instituições públicas, a desenvolver, cada vez mais, estas preciosas disposições naturais, cuja preponderância constante e universal pode, só ela, assegurar ao homem e à sociedade a dignidade e a felicidade aos quais eles têm razão de aspirar. Tudo quanto tende a atentar a esta purificação da nossa natureza, a este desenvolvimento consciente e interminável da sociabilidade humana deve, assim, ser repudiado; eis porque, Senhor e honrado Confrade, elevo a voz contra as tentativas de hipofagia, como já o fiz, na sua estimável gazeta, contra o abuso das vivisecções.

            Repito-o, não é nem por ignorância econômica nem por desgosto físico que o homem cessou de comer tais e tais animais e o cavalo em particular; porém porque, à medida em que ele se distanciou mais da bestialidade primitiva, passou a repugnar-lhe devorar, como recompensa pelos seus serviços, o companheiro dos seus trabalhos.  A prova disto acha-se nos esforços infrutíferos que indivíduos desviados fizeram para reintroduzir este costume bárbaro nas classes populares, que, por toda parte, conservaram um senso mais moral e mais verdadeiro das relações que o homem deve ter com a animalidade e que triunfarão, é preciso esperá-lo, sobre os sofismas e as manobras que a falsa ciência não cessa de inspirar. Porém, digo-o com uma convicção mais firme ainda, se em algum momento chegar-se, à força de predicações econômicas e de instituições de filantropia, a tornar a hipofagia popular, haver-se-á desferido um golpe funesto  na moralidade humana.

            Um dos resultados mais preciosos da civilização não é, de fato, a atenuação progressiva do instinto destruidor, da ferocidade nativa que o homem recebeu com todos os carnívoros e o desenvolvimento sucessivo da bondade, esta suprema qualidade do coração que o leva a praticar todas as ações magnânimas e que o eleva ainda mais do que a inteligência, acima da restante animalidade? Assim, se se conduzir a massa agrícola de uma nação como a França a comer habitualmente, sem emoção como sem escrúpulo, mesmo com prazer, o animal sobre o qual repousa toda a sua indústria, que durante tantos anos haver-se-á associado aos seus trabalhos, à sua vida de família e que, quase sempre, torna-se-lhe  amigo, não se haverá alterado, singularmente, nela,a sociabilidade que a civilização desenvolveu com tanta dificuldade, e restabelecido, em proveito da barbaria primitiva, a preponderância da bestialidade sobre a humanidade?”.

            Pondera, ainda, que “os indivíduos que nenhuma consideração moral detêm e que não vêm senão a matéria química e o interesse pessoal, caem, amiúde, nas mais deploráveis aberrações”, “desvios a que conduzem o industrialismo e a especialização científica fora da direção superior e indispensável da ciência moral”.[14]

            Na terceira carta, dirigida, igualmente, ao dr. Bossu, o seu autor afirma a condição carnívora do homem e que esta deverá ser limitada pelo critério resultante da lei histórica e moral, segundo a qual “a Humanidade consagra à alimentação os animais de que não pode obter um modo de associação mais elevado ou uma cooperação mais nobre”; por outro lado, “os deveres que ligam o homem aos animais são de ordem tão mais elevada quanto os seus serviços são mais eminentes ou que a sua cooperação é mais diretamente social”, o que lhes corresponde a maior desenvolvimento cerebral e a posição superior na escala zoológica.

            Assim, prossegue, a cooperação do cão é, sobretudo, moral e afetiva; militar, por vezes; freqüentemente, industrial. Ser-nos-ia, então, absurdo e imoral comê-lo e os nossos deveres em relação a ele são tanto mais extensos e rigorosos. Passa-se aproximadamente o mesmo em relação ao gato.

            Conclui o dr. Robinet pela irrogação da pecha de retrogradação à tentativa de readotar-se a hipofagia.

            III- As touradas.

 

            Assim como corresponderia a retrocesso a hipofagia, corresponderá a progresso a abolição das touradas, quer as de morte, que se praticam em Espanha (com o abate do touro na arena), quer as que se “limitam” a provocá-lo e a espetá-lo na arena e a abatê-lo às ocultas do público.

            Consistem as touradas em espetáculos profundamente imorais: é profundamente imoral a exibição em que se açula um animal (com o pano vermelho), em que se lhe cravam no dorso espetos que lhe ocasionam hemorragias e que termina (na Espanha) com uma estocada mortal, tudo mediante o júbilo da assistência, inteiramente insensível ao sofrimento do animal.

            Nenhum espectador admitiria, certamente, sujeitar a violência equivalente um ser humano; todos eles admitem-na, ao contrário, em relação aos touros que sofrem, fisicamente, tanto quanto qualquer pessoa padeceria, naquelas circunstâncias. Não apenas há indiferença pelos padecimentos do animal; pior do que isto,  há júbilo coletivo, com exclamações e aplausos, pelos movimentos destros em que o toureiro esquiva-se das marradas e em que o acutila mortalmente.

            Tudo isto é profundamente repugnante, odioso e indigno da moralidade humana.

            “É uma tradição”, alegar-se-á: há tradições que devem desaparecer e que, aliás, sequer deveriam haver surgido.

            Nem a condição tradicional da tourada, nem a destinação do animal abatido para  alimentação, nem o divertimento que se propicia aos espectadores justificam o tratamento cruel que se inflinge à vítima.

            Há deveres do homem em relação aos touros, dos quais o primeiro corresponde ao de poupá-los à monstruosidade das touradas e, com isto, respeitá-los na sua condição de seres capazes de sofrer. É o mínimo que se deve exigir; é o quanto nenhuma pessoa minimamente sensível pode recusar a estes irmãos inferiores[15] dos homens.

            Malgrado a origem portuguesa do Brasil, entre nós as touradas não prevaleceram; em Portugal, Isabel A. Ferreira[16] milita pela abolição delas,  no sítio a que se acede pela ligação abaixo, em que expôs textos e fotos: http://arcodealmedina.blogs.sapo.pt/ .


[1] Sistema de Política Positiva, I, 614.

[2] Sistema de Política Positiva, I, 615.

[3] Idem.

[4] Sistema de Política Positiva, IV, 360.

[5] Delbet, em “O progresso humano”, confrência proferida em 20 de março de 1890. Revista Ocidental, número 24,  1891, Paris.

[6] João Stuart Mill, “Augusto Comte e o Positivismo”.

[7] Venatória e não pescatória: caçam-se e não se pescam as baleias, mamíferos que são, e não peixes.

[8] Que, aliás, pratica uma atitude de insensibilidade: o capitão do Raquel pede-lhe que o auxilie na busca de um bote que se extraviara no mar, tripulado por alguns marujos e pelo seu filho, rapaz de doze anos de idade. Ahab indaga-lhe se avistara Moby Dick; em face da resposta positiva e da indicação do sítio do avistamento, determina que o seu navio, o Pequod, rume na direção correspondente e ignora, de todo, a súplica do seu homólogo, sem nenhuma explicação nem escusa.

[9]  Editorialmente malogrado Moby Dick, recebeu críticas pejorativas na altura da sua divulgação. Em contrapartida, “A viagem do elefante”, de José Saramago, cuida-se de  uma das raríssimas ficções que se desenvolvem acerca de um animal, o elefante Salomão, de que el-rei de Portugal fez presente ao imperador da Austria. Fundamentado em uma situação histórica, o conto (como o qualificou o seu autor) é simpático ao animal de que trata e termina com uma reação de afetividade, em que a rainha Dona Catarina pranteia-lhe a morte, ao conhecê-la.

[10] Feiticismo e não fetichismo. De feitiço, em português,  derivaram feiticismo e “fetichisme”, em francês, que se traduz, erradamente, por fetichismo. Assim, fetichismo corresponde a galicismo, por tradução literal de um vocábulo que se formou no idioma francês a partir de um vocábulo da língua portuguesa.

[11] Todo o estado de civilização resulta da atividade humana, como  produto da Humanidade, sob a coadjuvação dos animais. Daí a profunda ingratidão de quem agradece a deus, e não aos homens,  pelo de quanto desfruta.

[12] Não se trata do direito como regra legislada nem das prerrogativas que ela confere aos indivíduos.

[13] Cartas sobre a hipofagia, Paris, 1864; 23 páginas in-16.

[14] A última frase é especialmente significativa, como desmentido ao cientismo, que alguns criticadores do Positivismo lhe irrogam: segundo eles, este representaria a doutrina que, maximamente, adota a ciência como valor supremo e absolutamente suficiente na direção da vida e dos negócios humanos.  A doutrina positivista consiste em adotar-se a ciência como fonte de conhecimento, como critério de verdade (que não a teologia nem a metafísica), que deve submeter-se, no uso que dela se faz, ao serviço da Humanidade, vale dizer, ela deve servir ao melhoramento da condição do homem.  Isoladamente, a ciência é insuficiente e incompleta: ela deve ser eticamente orientada, sempre em sentido altruísta, como instrumento da ação humana em favor da coletividade. Ciência apenas, não; ciência com moralidade, ou seja,  conhecimento da realidade e o seu uso a bem de todos, humanos, animais e vegetais, e mais do planeta, da atmosfera e dos mares, ou seja, do meio e dos organismos que nele existem. Augusto Comte representa o precursor do ecologismo, tão em voga atualmente.

[15] Inferiores na acepção zoológica.

[16]  É autora de “Contestação ao livro 1808 de Laurentino Gomes”, editora Chiado, Lisboa, 2008.   1808 corresponde ao que de pior existe na historiografia brasileira recente. Tendencioso na sua lusofobia, parcial na escolha das suas fontes, preconceituoso no julgamento da influência portuguesa no Brasil, trata-se de livro destituído de valor literário, nulo em termos de originalidade e pernicioso, em razão dos sentimentos, que suscita, de desprezo pelo passado colonial brasileiro, o que, por sua vez, concorre, poderosamente, para a debilitação do sentido de identidade nacional . Escasso patriotismo há no Brasil,  supondo-se que um mínimo de apreço pelo passado nacional constitua-lhe um componente;  graças ao êxito de 1808,  have-lo-á  ainda menos, pelo desdém que infunde, no leitor brasileiro, pelas suas origens. Deploro, em  1808, a sua ação no rebaixamento da qualidade  do conhecimento histórico do  brasileiro e no aviltamento do nosso sentimento de identidade nacional, vale dizer, na obra de deformação do povo. Vide a minha crítica a ele em http://arthurlacerda.wordpress.com/2011/12/03/um-livro-pernicioso-1808/. Felizmente, Isabel A. Ferreira reagiu a 1808 com o seu “Contestação”, publicado em Portugal em 2008 e que urge introduzir-se no Brasil. Por outro lado, a obra de Gilberto Freyre constitui uma lúcida e esclarecida afirmação das virtudes da colonização portuguesa no Brasil: são, os seus, livros que todo brasileiro deveria ler e que, infelizmente, circulam por entre os estudiosos ou os especialmente interessados neles;  há, desta sorte, uma minoria intelectualmente esclarecida e uma multidão deformada por 1808 e, por culpa dele, um senso comum viciado. Desgraçado povo, o que lê porcarias desta natureza e se convence delas!

                               Arthur Virmond de Lacerda Neto é brasileiro e positivista ortodoxo.

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  1. Excelente, Arthur. Excelente.

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