Quem é “VIRMOND, A.” nos livros de Gustavo Biscaia de Lacerda.

 

Quem é “VIRMOND, A.” nos livros de Gustavo Biscaia de Lacerda.

Arthur Virmond de Lacerda Neto.

Acha-se, disponível na rede, desde 2011, uma tese de doutoramento aprovada na Universidade Federal de Santa Catarina, intitulada (com mau gosto) “Momento comtiano”, relativa ao pensamento do Positivismo de Augusto Comte, em que o autor, Gustavo Biscaia de Lacerda,  menciona, no texto e na bibliografia, “VIRMOND, A.”.

A. Virmond sou eu, de nome completo Arthur Virmond de Lacerda Neto, que deveria haver sido mencionado da forma academicamente correta, ou seja, “LACERDA NETO, A. V. de”.

O já agora professor pós-doutor Gustavo é meu irmão germano (somos filhos dos mesmos pai e mãe) e, obviamente, conhece-me o nome completo e as regras acadêmicas de citação de autores, que seguiu corretamente em relação a todos os que cita, exceto no que me concerne. Sou o único autor cujo nome ele elidiu, parcialmente, para ocultar o meu segundo sobrenome, Lacerda, e evitar, com isto, que o leitor perceba o parentesco existente entre nós.

Escrevi dois livros que tratam especificamente do Positivismo e outro em que há capítulos sobre ele, a saber: “A república positivista. Teoria e ação no pensamento político de Augusto Comte”, que o autor menciona na sua tese e no seu livro “Laicidade”; “A desinformação anti-Positivista no Brasil”, que Gustavo menciona no seu livro “Laicidade”; “Provocações”, com capítulos acerca do Positivismo, que Gustavo não menciona na sua tese nem em “Laicidade”.

A bibliografia da sua tese omite “A desinformação anti-Positivista no Brasil” e “Provocações”, que ele deveria haver, no mínimo, consultado; se não o fez, deixou de recorrer a livros de que dispunha, quanto mais não fosse porque lhe dei, pessoalmente, um exemplar de “A desinformação anti-positivista no Brasil” que publiquei no mesmo volume em que publiquei a “Pequena história da desinformação”, de Vladimir Volkoff: trata-se de dois livros em um só tomo, de que ele menciona o segundo, na bibliografia.  A quem consultou o de Volkoff é materialmente impossível ignorar a existência de “A desinformação anti-positivista no Brasil”. Na sua tese, ele o ignorou adrede: fingiu desconhecê-lo.

A menção errada do meu nome e a omissão de dois dos meus livros constituem falhas imperdoáveis. Não foram casuais; ao contrário, foram intencionais, no intuito de ocultar o meu nome e parte da minha obra. A atitude do autor da tese constitui falha acadêmica, pelo que ela não poderia, jamais, haver sido aprovada com louvor, como o foi: ao contrário, sem louvor, e com censura pela atitude mesquinha de que ela serviu de instrumento, como veículo de ódio de família que, no seu autor, sobrepujou e ainda sobrepuja a correção acadêmica.

Após a disposição da tese, na rede de computadores, dirigi-me, privadamente e por escrito, a Gustavo. Protestei contra a mutilação do meu nome; em resposta, recebi subterfúgios cínicos. Quando lhe esfreguei na cara a regra da Abnt, concernente à citação dos nomes dos autores, ele calou-se.

Em 2016, Gustavo publicou  “Laicidade na I República Brasileira” (Curitiba, Appris Editora), em cuja página 162 insiste na aleivosia de identificar-me com o meu nome mutilado, a saber, “VIRMOND, A.”.

O professor pós-doutor Gustavo Biscaia de Lacerda odeia-me ferozmente há, pelo menos, dez anos; recusava-me, com ódio velado, há cerca de vinte, suspeito de que por homofobia internada (“internalizada”).

Em 2016, ele persiste, se não no seu ódio, certamente sim no procedimento soez de ocultar-me a identificação por nome completo e o nosso parentesco, com evidente infração da correção acadêmica (porquanto “Laicidade” foi-lhe texto de pós-doutorado) e da probidade com que menciona as suas fontes, ao menos em relação ao que me toca.

No seu blogue “Filosofia social e Positivismo”, o pós-doutor Gustavo mantém as ligações de vários sítios eletrônicos de interesse positivista, porém não o do meu “Positivismo de Augusto Comte” (https://positivismodeacomte.wordpress.com/).

Cada um julgue do valor moral e da lisura acadêmica com que o professor pós-doutor Gustavo Biscaia de Lacerda me vota ódio e com que elide ao público, nas suas obras, a minha identificação. Ele sonega aos seus leitores informação que lhe era acadêmica e intelectualmente obrigatório propiciar-lhes; ele desinforma-os.

Cada um julgue se ele procedeu com probidade acadêmica e lisura intelectual ou se atuou com inegável desonestidade acadêmica e intelectual.

Pergunto: há probidade ou improbidade em sonegar, deliberadamente, em parte, o nome de autor que cita em nota de rodapé e na bibliografia, em tese de doutorado e em texto de pós-doutorado, acessíveis ao público, nome que ele obviamente conhece, por inteiro? ? Representa reincidência de improbidade persistir na mutilação do meu nome (em livro de 2016), a despeito do meu protesto, em 2011, e ainda que eu não houvesse protestado ? ? Ou ele foi probo, honesto, correto, moral acadêmica e intelectualmente, ao mutilar o meu nome, cujo enunciado obviamente conhece e cuja enunciação como “LACERDA NETO. A. V. de” era-lhe imperiosa, academicamente  e por lisura intelectual ? ?

Não se trata, da minha parte, de mera vaidade ferida por descuido do pós-doutor. Academicamente, a menção correta dos autores é forçosa: o pós-doutor jamais incorreria em tal desatenção de boa-fé.

Não se trata de questão de somenos, de meros sobrenomes, de picuinha de autor enfatuado: trata-se do intencional, deliberado, consciente obscurecimento da minha pessoa, da vinculação dela aos meus livros e do parentesco existente entre mim e Gustavo. Como “VIRMOND, A.”, não sou eu; não sou o autor dos meus livros e não sou irmão de Gustavo. Eu sou eu, bibliograficamente, como “LACERDA NETO, A. V. de”: desta forma, academicamente correta, o meu nome corresponde-me à pessoa; somente ela identifica-me, realmente, como autor dos meus livros; por ela, nota-se a coincidência de sobrenomes entre mim e o pós-doutor, o que, por sua vez, suscita, no mínimo, suspeita de parentesco entre ambos.

Identificado pela forma como o pós-doutor o fez, é como se eu não fosse eu: “VIRMOND, A.” não é ninguém.  Para o leitor desavisado,  “LACERDA NETO, A. V.  de” e “VIRMOND, A.” são duas pessoas, de que a segunda nenhum parentesco guarda com ele; no meio acadêmico, é indesculpável tal infração das regras da Abnt.

É evidente que qualquer leitor, ao se lhe deparar o nome Arthur Virmond de Lacerda Neto, percebe a coincidência com o Lacerda de Gustavo Biscaia de Lacerda: é esta percepção que o pós-doutor elide, capciosamente. Ele almeja evitar que os seus leitores percebam haver outro Lacerda, autor de livros sobre o Positivismo, e anteriores aos dele; deseja evitar a pergunta, no espírito do leitor: “Qual é o parentesco entre ambos?” e a resposta: “São irmãos germanos”.

Ele, que pontifica graças ao Positivismo, talvez insuporte, intimamente, dever-me a mim havê-lo conhecido. Talvez também me inveje, do que suspeito há cerca de vinte anos. Creio que me odeia por homofobia internada (“internalizada”).

 

 

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Entrevista à Pedra de Toque.

 

Concedi entrevista ao blogue Pedra de Toque, do escritor e tradutor João Rosa de Castro, exposta em primeiro de abril de 2018. Ei-la:

ARTHUR DE LACERDA E A CIVILIZAÇÃO DESNUDA

 April 1, 2018|

Rosa Castro Autor

(Pedra de Toque): Quais são suas fontes de pesquisa criativa e produtiva? Onde vai buscar mais ideias para o seu trabalho? Vêm de outros livros e autores ou da própria vivência? O que predomina?

(Arthur de Lacerda): Parte provém de autores variados, parte provém da minha vivência: de muitas leituras e das reflexões que elas me propiciaram, formei cosmovisão e adquiri conteúdo intelectual; da minha experiência existencial, de alguma parte do que observo e do quanto vivi e vivo (nos limites, estreitos e condicionados da vida que cada um experimenta) aproveito situações humanas, geralmente verídicas, como inspiração ou motivo de análises de situações, valores, comportamentos, reações. Assim, por exemplo, artigos relativos à nudez, resultaram do exame do etos do brasileiro médio e dos seus padrões de moralidade, como produto parcial da leitura de vários autores que se dedicaram ao tema; já dois livretos (Dilema em Braga e Memórias de duas amizades), são autobiográficos. Semelhantemente, muita da minha poesia fundamenta-se em observações e experiências pessoais, de envolta com reflexões.

Com isto, na minha produção predomina o repertório de conhecimentos que acumulei e vou acumulando, mercê de ininterruptas leituras, que aproveito como materiais em que exerço tino pessoal.

(Pedra de Toque): Sabemos que você repudia as paixões e a política imediatista. Mas restou-lhe uma paixão, presente em muito de sua obra escrita impressa e digital: o positivismo de Augusto Comte. Fale um pouco dele.

(Arthur de Lacerda): O Positivismo de Comte (que não se deve confundir com o mal apelidado positivismo jurídico) correspondeu-me à descoberta intelectual da minha juventude. Com cerca de 18 anos de idade, andava à procura de doutrina que, emancipada de sobrenatural, combinasse o conhecimento científico e o antropocentrismo. O Positivismo é isento de sobrenatural (sentido em que é ateu), pauta-se pelo espírito positivo (que transcende o mero conhecimento da ciência), a que associa o humanismo, em que o humano preside aos valores, às motivações, às ações e ao sentido da vida.

Dos meus 18 anos para cá, persisti, invariavelmente, positivista, na convicção da qualidade dos seus ideais de paz, engrazamento entre as pessoas, afetividade como inspiração e racionalidade como critério de ação, conhecimento das realidades, espírito público, apreço pela alta cultura.

Existe, no Positivismo, mensagem construtiva e socialmente útil, na medida em que ele inspira sentimentos, comportamentos e políticas voltados ao melhoramento da condição de vida das pessoas, ao mesmo tempo em que dispensa qualquer sobrenatural, ou seja, voltado ao social, fundamenta-se no real.

(Pedra de Toque): Vemos hoje nas redes sociais através dos movimentos de restabelecimento da monarquia parlamentar no Brasil que “o positivismo foi crucial para o desmonte da monarquia”. É por isso que não lhe agrada tratar de política? Acha que, apesar de ter feito muito bem ao mundo como um todo, o positivismo não fez muito bem ao Brasil?

(Arthur de Lacerda): O meu desinteresse por toda política do presente, de qualquer presente, no que ela contém de imediatista e efêmero, advém-me de idiossincrasia pessoal e não de atitude intelectual originária do Positivismo nem de juízo acerca do acerca do Positivismo, no seu papel político, no Brasil.

A vida política é imediatista, efêmera e mutável, o que não me atrai. Atraem-me os conteúdos culturais já incorporados, de modo estável, ao patrimônio humano: literatura, filosofia, história, ciência, arte, que prefiro conhecer a ocupar-me em acompanhar os embates políticos do dia a dia, sem, todavia, lhes negar importância, porquanto nos atingem, a todos, em alguma medida.

O Positivismo contribuiu para a derrocada da monarquia e para a organização da república, sentido em que o seu papel foi, primeiro, de cooperar para a eliminação do regime já caduco; a seguir, obrar na construção do regime que o Positivismo enaltece. A contribuição dos positivistas foi assinalável, na pessoa de Teixeira Mendes, de Benjamin Constant, de Demétrio Ribeiro, de Júlio de Castilhos, de Borges de Medeiros e não só, como na inserção de inúmeras sugestões dos positivistas na constituição de 1891.

A influência positivista foi benéfica, com o seu repúdio à guerra, à violência em qualquer das suas expressões, com a sua solidariedade pelos trabalhadores, com a sua ênfase na regência moral da política, com o seu espírito público, com a afirmação das liberdades de expressão, opinião, participação política e de escolha pessoal, com a valorização da laicidade do estado, da instrução geral da população, com a dignificação da mulher.

Um positivista mineiro, já falecido, Rubem Descartes de Garcia Paula observou haver faltado Positivismo na vida política brasileira, inclusivamente no lapso de 1964 a 1982: o ideário positivista teria, por meio dos seus adeptos, influenciado no sentido de se evitar ou mitigar excessos de autoritarismo e até de violência dos governos.

Faltou Positivismo de 1930 por diante, com a adversidade do regime de Getúlio Vargas a ele, em simbiose com a igreja católica, ambos coligados em deprimi-lo (e exaltar o catolicismo). Com mais Positivismo e, por conseguinte, mais laicidade, mais instrução, mais humanismo, menos sobrenatural, menos obscurantismo, menos conservadorismo de costumes; mais destinação social da riqueza e, por conseqüência, menos pobreza; com o mesmo espírito de retidão na vida pública que o Positivismo valoriza e, destarte, menos corrupção (ou nenhuma), o quadro da vida coletiva nacional seria bem melhor do que o é.

(Pedra de Toque: Como considera a “homossexualidade”? Parece apoiar o direito ao casamento civil (incluindo a adoção de crianças) de pessoas de mesmo sexo. Não crê que o culto da “homossexualidade”, assim como o da sexualidade livre como um todo, deixaria de ter o mesmo valor ou ofereceria uma menor “glamourização” aos indivíduos se se politizasse, entre os exemplos, na união civil citada?

(Arthur de Lacerda): Considero a homossexualidade (bem como a bissexualidade e a trans-sexualidade) como inerente ao ser humano: ela sempre existiu, em todos os tempos e lugares. Sempiterna e ubíqua, é onipresente, é constante da natureza humana e como tal foi aceitada por várias civilizações até o advento do cristianismo, não somente co-responsável pelo transtorno do etos romano e pela aceleração do fim da civilização romana, como introdutor de inúmeros males morais
da civilização ocidental, dentre eles a homofobia. Não que o cristianismo o criasse, porém fortaleceu-a, do século 13 a esta parte.
Apoio o casamento entre iguais ou casamento homossexual, para homens e mulheres, com adoção: trata-se de escolha individual, que afeta aos dois envolvidos, nas respectivas privacidades. Aos demais cabe o dever de respeitar a escolha, se ela for este e a possibilidade de não se casar, se for o caso, seja com alguém do mesmo sexo, seja com quem for.

A adoção por casais homo propiciará acolhimento a crianças que, sem ela, ficariam ou prosseguiriam em desamparo. É irrelevante não haver pai e mãe; é relevante haver pai, um ou dois, ou mãe, uma ou duas, e preferível isto a não haver nem um nem outro. A criança adotada certamente pensa mais no seu presente e no seu futuro do que na tacanhice de certos adultos. Penso que a união civil, como casamento, de homossexuais, corresponde a acréscimo de felicidade para parcela significativa da população brasileira: há mais famílias, mais gente com a possibilidade de realizar-se ao seu modo, ao invés de ser fadada a ser infeliz ou a fingir felicidade ao modo alheio.

O andar implica modificações de etos, de sensibilidade, de instituições e de costumes. Vivemos tempos bonançosos, de aceitação da natureza humana e de liberdade de costumes. Tem sido assim nas últimas décadas: feminismo, revolução sexual, liberdade sexual, divórcio, casamento homo, adoção por casais homo, tudo isto se afasta do modo antigo, arcaico, de ser, das pessoas, e de julgar moralmente, modo originário, quer me parecer, em sensível medida, da pregação religiosa. Por outro lado, as modificações que citei importam em mais liberdade e em ética antropocêntrica, alheia a tabus e a condicionamentos direta ou indiretamente teológicos. No fundo, trata-se do movimento espontâneo das sociedades em direção às manifestações da natureza humana, fora de dogmas religiosos. Considero desejável que seja assim.

(Pedra de Toque): Cite dois autores que mais lhe inspiram na sua criação e na sua produção. Fale um pouco deles e da relação mimética da obra deles com a sua.

(Arthur de Lacerda): Inspiraram-me Augusto Comte e Ortega y Gasset. Na verdade, não há mimese entre eles e mim, no sentido de que não os imito, porém no Positivismo encontrei e encontro motivos de reflexão e análise. Em Ortega encontrei reflexões, análises, conhecimentos de amplo espectro, que me forneceram certa capacidade de pensar, certo tirocínio intelectual, que me valeu como (passe a expressão) treinamento de saber pensar, e como fonte de cultura.

O sentido de moral antropocêntrica, a valorização dos bons sentimentos, o desdém pela teologia, o respeito pelo legado humano que se transmite ao longo das gerações, o espírito público, a preocupação social, são traços do Positivismo que me movem e formas da presença de Comte no meu espírito.

Em relação a Ortega, dele assimilei a lição fundamental de reconhecer o homem-massa e diferenciar-se dele.

A combinação das lições de Ortega com o espírito positivo incrementaram-me o senso de independência intelectual que já me reconhecia, antes de os conhecer, vale dizer, a capacidade de pensar autônoma e, sobretudo, independentemente das idéias estabelecidas ou do pensamento majoritário.

(Pedra de Toque): Tente resumir cada um de seus livros em ordem cronológica. De que trata cada um?

(Arthur de Lacerda): Os meus livros principais tratam: “Provocações” comunica algumas reflexões relativas a costumes, tipos humanos, Positivismo, estrangeirismos no idioma.

“Pequena história da desinformação” esclarece alguns mitos circulantes, no Brasil, à volta do Positivismo; nele comprovo que Comte não ensandeceu, que o Positivismo não é burguês nem autoritário, que os regimes de Getúlio Vargas e de 1964 não eram positivistas.

“A república positivista” analisa o projeto político republicano de Comte e a sua aplicação no Brasil.

“Memórias de duas amizades” narra, quase dia por dia, a história de duas amizades que tive.

No âmbito da história do Direito, “As ouvidorias do Brasil colônia” contém a biografia parcial de um ouvidor colonial, Rafael Pires Pardinho; “Breve história das codificações jurídicas” expõe a gênese dos códigos jurídicos modernos.

“Estudos de Direito Romano” e “Novos Estudos de Direito Romano” ocupam-se de aspectos da história do Direito, relativas ao direito da antiga Roma e à sua inserção no curso da evolução do direito ocidental.

(Pedra de Toque): Lemos críticas suas, aliás, bastante jocosas, sobre alguns habitantes de Curitiba, para os quais você usa o gentílico crítico “curitiboca”. Não se orgulha de Paulo Leminski, Dalton Trevisan, e muita gente boa nascida por aí?

(Arthur de Lacerda): Do primeiro que nomeou, não me orgulho; do segundo, digo nada; alguns outros, como Dario Veloso e David Carneiro, admiro-os e orgulho-me de ser-lhes concidadão, porém prefiro ser cauteloso ao orgulhar-me de alguém, como concidadão. Prefiro admirar certos vultos, pela sua grandeza pessoal, pelo seu papel social, pelo seu legado aos seus coevos, a orgulhar-me de pessoas, devido à circunstância acidental de havermos nascido na mesma cidade. O papel das pessoas transcende, muitas vezes, o perímetro da sua cidade e o ambiente dos seus vizinhos; sem desdenhar dos que atuaram, positivamente, no ambiente curitibano, o meu estalão de admiração é outro.

Simultaneamente, em nada me ufano de ser natural de cidade cujo povo, em geral e tradicionalmente, apresenta etos e patos já famigerados e que o gentílico curitiboca (não é da minha autoria) caracteriza pelo seu lado pejorativo. Não me orgulho de pertencer ao corpo de cidadãos em que parte quase se jacta de sentir-se alheio ao concerto dos demais brasileiros, alheio no sentido, quiçá sobranceiro, de arrogar-se pretensa condição europeia e culta e, com isto, superior, quando os traços do curitiboca consistem no ensimesmamento, na introversão, na escassez de alegria e de espontaneidade, sentido em que o curitibano não é brasileiro, no que este apresenta de simpático e aberto ao próximo e aos estranhos.

(Pedra de Toque): Qual será o p(l)ano de fundo quando você condena os estrangeirismos na língua portuguesa? Preservar uma tradição de caráter Português ou valorizar e revalorizar os produtos e serviços oferecidos na nossa língua, seja aqui, seja em Portugal, seja em Moçambique, Angola, etc.? Sua preocupação é comercial ou cultural?

(Arthur de Lacerda): Minha preocupação jamais foi comercial e sempre foi cultural e idiomática. Condeno os estrangeirismos na medida em que representam elementos alienígenas e amiúde desnecessários; se para alguns, eles enriquecem o português, considero que eles o intumescem sem, necessariamente, melhorá-lo. Entre vernacularismo e um peregrinismo, julgo sempre desejável o que já pertence ao vernáculo e indesejável o que, sem necessidade, nele se imiscui.

Não se cuida de preservar tradições lingüísticas de caráter português, porém de zelar pelo nosso idioma e pela sua pureza, cujo mínimo indispensável consiste em usar expressões, recursos, sintaxe e léxico do português em vez dos homólogos estrangeiros.

(Pedra de Toque): Se não nos enganamos, estudou pós-graduação em Portugal, de onde lhe permanecem costumes. Como compara o Direito em Portugal e no Brasil, com cujos costumes, quer linguísticos, quer culturais você precisará conviver e precisará ajudar a transformar enquanto residir por aqui?

(Arthur de Lacerda): O direito civil de lá e de cá é, essencialmente, o mesmo, com poucas diferenças, mais acentuadas em outros ramos do direito, como o constitucional, à vista do sistema, no Brasil, ser presidencialista, e parlamentarista, em Portugal.

Um contraste existe entre o direito português e o nosso, no que toca ao casamento homossexual, lá já existente como produto de alteração no Código Civil, que entre nós vai tardando.

Ambos direitos, por outro lado, são, por assim dizer, irmãos, porquanto provêm da mesma origem, a saber, as Ordenações Filipinas (pré-codigo que vigeu em Portugal e nas suas colônias, o que incluiu o Brasil) e as que as antecederam. Ambos partilham, também, do direito romano e do código de Napoleão, como fontes que os irmanam.

(Pedra de Toque): Arthur, o que é a vida?

(Arthur de Lacerda): A vida é o que é para quem a define como o faz: cada um a define, interpreta e entende ao seu modo, com o que, resposta a tal pergunta é subjetiva e vale tanto como expressão de idiossincrasia e de experiências, como produto de reflexão. Ela é o esforço contínuo do indivíduo, como agente do seu próprio destino, em realizar o programa de futuro que concebeu para si ou em constituir estado de coisas que lhe seja confortável (que, por sua vez, poderá coincidir com o seu planejamento existencial), em meio ao ambiente humano e cosmológico que condiciona, para bem ou para mal, a atividade individual. Neste aspecto, vida é interação entre o indivíduo e o meio; interação equivale a ações e a reações entre ambos, e não em insulamento. Ao fim e ao cabo, a vida se traduz no movimento contínuo entre cada um e os demais e o mais que existe à nossa volta. Viver é existir, em meio às coisas, e conviver, em meio aos outros.

(Pedra de Toque): Receba aquele abraço, que é a única coisa falsa deste blogue.

Os livros de Arthur Virmond de Lacerda Neto podem ser adquiridos na Editora Juruá (www.jurua.com.br) e na Estante Virtual (www.estantevirutal.com.br).

 

O original da entrevista aqui: https://www.pedradetoque.com/post-unico/2018/04/01/ARTHUR-DE-LACERDA-E-A-CIVILIZA%C3%87%C3%83O-DESNUDA

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Não ter religião; ter valores.

NÃO TER RELIGIÃO SOBRENATURAL; TER VALORES.

As pessoas aderem ou “aderem” às religiões, freqüentemente, por influência do ambiente em que são criadas: família e escola. Criadas em meio, por exemplo, católico, as crianças deixam-se persuadir pelos dogmas, ritos, tradições, maneiras de pensar e de atuar que encontram no seu ambiente e que reproduzem por imitação. A criança criada em família católica será, tendencialmente, católica; criada em ambiente budista será, tendencialmente, budista e assim por diante, e as suas “verdades” resultarão do seu meio familiar e não do exercício racional do seu discernimento, que as leve a analisar as diferentes religiões ea eleger uma, dentre várias.

Por outro lado, as pessoas apostatam da religião que professam, em regra, após a infância, da adolescência por diante, quando informam-se acerca das origens dos dogmas, culto e práticas da sua religião, ou quando atentam às críticas que se lhes fazem, ou quando exercem crítica pessoal acerca destes dogma, culto e práticas.
A adesão dá-se por influência do meio, sem persuasão racional; a apostasia dá-se pelo exercício da inteligência do apóstata. A adesão também pode resultar de necessidades emocionais, de insegurança pessoal, de carência de cura, em que o necessitado, o inseguro, o enfermo, de fraca ou nula capacidade crítica acerca das religiões, deixa-se persuadir pelas promessas de proteção, cura, oportunidades, gratificações, bençãos, alegrias, vitórias etc. No Brasil, a religião propaga-se por entre o povo pobre e ignaro: na pobreza, a carência material e de recursos; na ignorância, a credulidade, a propensão a deixar-se impressionar pela figura do padre ou do pastor, pelos textos da Bíblia, a ausência de contra-argumentação, de crítica, de desmentidos.

O ateísmo pode consistir, apenas, na ausência de crença nos deuses (o cristão é um deles); pode-se viver sem a idéia de deus. Mas o ateísmo pode consistir, também, em viver com conhecimento de filosofia, de história, de sociologia, de crítica religiosa que justifique a descrença. Para mais de mera negação do sobrenatural, o ateísmo pode comportar a afirmação da naturalidade, do humanismo, dos valores humanos, de dar sentido à vida sem sobrenatural. Há três acepções de ateísmo: 1) ausência de crença sobrenatural; 2) tal ausência e presença de cultura a-religiosa; 3) antropocentrismo.

É habilidade explorada pelos religiosos dizer que apenas a fé sobrenatural propicia valores, moral, bons costumes, defesa da família, amor, paz etc. Tudo isto é possível sem deus, sem Cristo, mediante o exercício da bondade espontânea do homem e na sua inteligência, com senso de realidade, ou seja, sem ilusões, fantasias e crendices.

 

É crescente, nas sociedades ocidentais, máxime na juventude, a secularização e, com ela, a ausência de filiação religiosa. Cada vez mais há jovens emancipados intelectual e emocionalmente de religiões sobrenaturais (em 2018: 42% dos jovens em Portugal; 46%, na Alemanha; 55%, na Espanha; 64% na França; 80% na Estônia;  91% na República Checa). No Brasil, é igual a tendência, na juventude de classe média, média alta e alta; ao invés, nas classes baixas, predomina o cristianismo, notadamente evangélico.

Emancipação da juventude: aqui. Abaixo, transcrição da matéria.

 Do periódico português Visão:

“42% dos jovens portugueses não se identificam com nenhuma religião

21.03.2018 às 15h51

Estudo europeu divulgado esta quarta-feira caiu como uma bomba, mas a verdade é que apenas veio confirmar a tendência observada em inquéritos anteriores. E mostrar que não somos os únicos a afastarmo-nos da Igreja

ROSA RUELA

Jornalista

Quando se olha para percentagens quase sempre vem à cabeça a imagem do copo meio cheio e do copo meio vazio. Podíamos pegar no relatório Os Jovens Adultos e a Religião na Europa e escrever que a maioria dos jovens portugueses entre os 16 e os 29 anos identifica-se com uma religião, mas neste caso é o próprio autor principal do estudo que conclui: “A percentagem elevada de jovens adultos afirmando não ter nenhuma religião em muitos países é, sem nenhuma dúvida, o facto mais significativo deste relatório.”

É verdade que, segundo este relatório publicado pelo Centro de Religião e Sociedade Bento XVI, divulgado esta quarta-feira (atempadamente antes do Sínodo dos Bispos dedicado à juventude que o Vaticano agendou para outubro), 57% dos jovens portugueses se identificam com alguma religião. E que, entre estes, 53% dizem-se católicos. No entanto, é para os 42% de jovens que afirmaram não ter nenhuma religião que todos olham – aparentemente sem dramas.

“O cristianismo era originalmente muito estranho, e é provavelmente bom para nós sentirmo-nos um pouco estranhos”, já disse Stephen Bullivant, professor de Teologia e de Sociologia das Religiões na Universidade de St. Mary, no Reino Unido (onde também dirige o Centro Bento XVI), que encabeçou o estudo realizado em colaboração com o Institut Catholique de Paris, em França.

Bullivant e a sua equipa pegaram em dados recolhidos no European Social Survey (ESS), nas edições de 2014 e 2016, relativos a 22 países europeus, para fazerem um retrato da dimensão e prática religiosa dos jovens católicos. Os dados de Portugal são apenas de 2014, e a Itália ficou de fora porque em nenhum destes anos conseguiu financiar a realização de um inquérito.

Entre as conclusões a que chegaram, os investigadores destacam que, em 12 dos 22 países, mais de metade dos jovens adultos declararam não se identificar com nenhuma religião. À cabeça encontraram a República Checa, com uns esmagadores 91 por cento, e na cauda Israel, com 1 por cento. Logo em segunda posição no gráfico, com 80 por cento, ficou a Estónia. E acima de Israel encontra-se a Polónia, com 17 por cento, e a Lituânia, com 25 por cento. “É interessante constatar que os dois primeiros países e os dois últimos são países pós-comunistas”, escreve Bullivant.

É igualmente interessante ver quem são os nossos vizinhos na tabela do “não”: os irlandeses, com 39 por cento, e os alemães, com 46 por cento. Os espanhóis, nossos vizinhos no mapa mundi, ainda estão mais desligados da fé do que nós, com 55 por cento, mas mesmo assim bastante menos do que os seus vizinhos franceses, com 64 por cento.

Quanto à prática religiosa, depois de aplaudirem o facto de o ESS colocar igualmente esta questão a todos os inquiridos, religiosos ou não, Bullivant et al. analisam as respostas à pergunta “Fora de ocasiões como os casamentos e os funerais, quantas vezes assiste a um serviço religioso?”. Aqui, temos 35% de portugueses a confessarem nunca ir, e 20% a afirmar fazê-lo pelo menos uma vez por semana ou mais. “Em apenas quatro países, mais de um jovem adulto em dez declara ir a serviços religiosos pelo menos uma vez por semana: na Polónia, em Israel, em Portugal e na Irlanda”, notam os investigadores. Fora de missas e afins, é interessante verificar que a percentagem de quem assiste a serviços religiosos uma vez por semana ou mais aumenta ligeiramente (23 por cento); a resposta “nunca” desce, por isso, para 41 por cento.

Entre os que se disseram católicos, 27% dos jovens portugueses entre os 16 e os 29 anos afirmaram ir à missa pelo menos uma vez por semana e 17% assumiram-se como “não praticantes” (nunca vão à missa). Ter fé não é o mesmo que acreditar na Igreja – e aqui, sim, percebe-se por que razão Stephen Bullivant lamenta ter-se perdido toda uma geração.”

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Manifestos Humanistas.

Em 1933, emitiu-se o primeiro manifesto humanista, em que 34 pessoas subscreveram texto de quinze princípios. Quarenta anos transcorridos, produziu-se o segundo, a que aderiram 262 pessoas. Mais extenso e minudente do que o seu predecessor, nele negaram-se a divindade e a concepção de salvação eterna; advogou-se o antropocentrismo da moral; valorizaram-se a razão e a inteligência, as liberdades civis, a liberdade sexual; preconizaram-se a laicidade do Estado e a universalidade da instrução; repudiaram-se discriminações entre pessoas; enalteceu-se a resolução pacífica de conflitos internacionais; encareceu-se a preservação do planeta Terra e da natureza ambiente; ambicionou-se a erradicação da pobreza e o incremento das comunicações entre os povos.

Ambos manifestos foram traduzidos e publicados, em 1979, em Curitiba, por David Antônio da Silva Carneiro (1904 – 1990), eminente historiador do Paraná e Positivista (adepto das doutrinas de Augusto Comte), condição em que aderiu intelectualmente a ambos. O Positivismo é forma de humanismo: é antropocêntrico, encarece o altruísmo, a cooperação de todos para com todos, recusa o sobrenatural, valoriza a herança cultural que se vem transmitindo ao longo dos tempos, advoga a laicidade estatal.

Por iniciativa própria e às suas expensas, David Carneiro publicou ambos manifestos em folheto de doze páginas, que distribuiu nos limites, exíguos, das suas relações, em exemplares raríssimos; neles, privou-se de se identificar como seu tradutor.

No Brasil, o humanismo acha-se organizado na Liga Humanista Secular do Brasil (http://lihs.org.br); acha-se organizado nos E. U. A., na Associação Humanista Americana (https://americanhumanist.org/), desde 1941. Em Portugal, há a entidade Humanismo Secular Portugal (http://www.humanismosecular.org) em cujo sítio, aliás, encontra-se exposto o manifesto humanista de número 3.

Os Positivistas aderem a ambos manifestos, quiçá com ligeiras reservas ou, provavelmente, sem nenhuma.

Fica o registro do texto introduzido no Brasil por David Carneiro (penso que pioneiramente) e distribuído (creio que exclusivamente) em Curitiba, para âmbito de leitores que agora se alarga. Loas a David Carneiro, erudito ímpar, historiador prolífico, inteligência de escol, Positivista que o foi da juventude à sua morte.

Aceda aos textos por esta ligação: Manifestos Humanistas.

Na fotografia, David Carneiro (à direita, de braços cruzados), ladeado pelo escultor João Turim, na inauguração do monumento a Benjamin Constant Botelho de Magalhães (Positivista), em Curitiba.

David Carneiro e Turim.

 

Disponho de alguns exemplares do folheto, que remeterei a quem me pedir. Ignorarei manifestações como “Tenho interesse neste item”. (Tenha modos: saiba pedir.). Manifeste-se nos comentários.

 

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A Federação.

A Federação, informativo positivista, da capela positivista de Porto Alegre, no seu primeiro número, de 19 de janeiro de 1918: http://www.prossumers.com.br/pdf/POSITIVISTA.pdf

 

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Relacionamento aberto, retrodoxia, Positivismo.

 

Relacionamento aberto, retrodoxia, Positivismo.

Arthur Virmond de Lacerda Neto.

20.I.2017.

O relacionamento aberto é forma de relacionamento tão legítima e boa quanto o fechado, e até melhor do que este, desde que os envolvidos consintam nele, ou seja, se os dois envolvidos aceitam que um deles ou ambos possam manter relações sexuais ou afetivas (ou ambas) com terceiros, exercem a sua liberdade na sua intimidade.
É da conta deles e não da conta alheia o modo como vivem a sua deles intimidade, afetividade e sexualidade. Isto, à luz da liberdade; à luz da felicidade, o relacionamento aberto pode ser vantajoso se o envolvimento passageiro ou permanente, sexual ou afetivo com outrem acrescentar bem estar a quem se envolve e ao casal.

 

Segundo alguns observadores (W. Reich, em “A revolução sexual”) o casamento “tradicional”, com virgindade pré-conjungal obrigatória (abstinência dos solteiros; masturbação como única expressão sexual do solteiro), com fidelidade obrigatória, é extremamente infelicitador na maioria dos casos. Daí a trivialidade dos divórcios nos países protestantes, e a sua trivialização nos católicos que o instituíram, o que inclui o Brasil em que as pessoas viviam (até os anos 1980-90) solidões a dois e casamentos hipócritas. Também havia a famigerada moral dupla: o marido podia (na nossa sociedade e na Europa) ter amantes e ser bordeleiro (ir às meretrizes); era esperado que assim fosse, ou seja, mesmo no regime cristão (porque a matriz desta forma era religiosa), admitia-se, por via travessa, o relacionamento aberto, em favor do marido (e não também da mulher), em favor da felicidade dele e da sua melhor convivência com a mulher (que suportava, submissa, maus casamentos ou se divorciava).

Além disto, o relacionamento fechado (casamento monogâmico) é construção social, de origem religiosa. O casamento monogâmico é, sim, culturalmente dado; não é inerente à natureza humana.

Comparo o relacionamento aberto com o casamento homo: ambos são formas de expressão da liberdade e da natureza humana. Proibir um e outro resultam de condicionamentos culturais, nos dois casos, da mesmíssima origem: a religião. No caso da recusa do relacionamento aberto, a recusa origina-se, também, de outra fonte: o ciúme, como sentimento de posse, para contrariar o qual alguns indivíduos, ao longo dos séculos, propuseram relacionamentos abertos e coletivos (na idade média; nos E.U.A. nos anos de 1830, nos anos de 1950. Vide “A mulher do próximo”, de Gay Talese).

Em suma: julgo bem-vindo o relacionamento aberto, se os envolvidos aquiescem nele; pode ser vantajoso para os envolvidos; pertence à intimidade dos envolvidos; não é novidade, historicamente considerado; a sua recusa decorre da religião e do ciúme.
Ele existe, em casais hetero e homo, velada ou manifestamente. Hodiernamente, a retrodoxia conservadora-religiosa alarma-se com a teoria “queer”, que ela apelidou de “ideologia de gênero”. É o motivo de pânico moral do momento, como, por décadas a fio, no Brasil, foi o divórcio, nos meios católicos (anti-divorcistas).

A retrodoxia conservadora-religiosa afirma o valor da família e aferra-se ao modelo cis-hetero-normativo-monogâmico-procriador-fiel-cristão. É modelo a que, por séculos, as pessoas foram condicionadas e que vem sendo questionado.
Ele exclui e censura a sexualidade pré-conjugal (há que casar-se virgem), o divórcio (no catolicismo), o casamento homo, o poliamor, as famílias mono-parentais, o relacionamento aberto, a contracepção.

No presente, nada disto suscita pânico moral à retrodoxia, exceto, em proporção decrescente, o casamento homo: dez anos atrás, os setores mentalmente arcaicos e arcaizantes da sociedade brasileira bradavam em hostilidade a ele e em defesa da família (“tradicional”) e das crianças. Hoje, o casamento homo existe em inúmeros países, inclusivamente neste, e a família (“tradicional”) persiste, como vem perdurando apesar do divórcio e da contracepção (assaz difundidos no Brasil). Perdurará, a despeito do poliamor, do relacionamento aberto e da teoria da construção social, ou seja, parece-me tendência inerente à natureza humana a existência da monogamia. Não se encontra ela sob ataque nem carece de ser defendida. O ser humano espontaneamente é monogâmico.

Qualquer modificação no modelo cis-hetero-normativo-monogâmico-procriador-fiel-cristão alarma a retrodoxia: ela julga-se detentora exclusiva do certo e do verdadeiro; intolera a liberdade alheia; pretende impor a todos a fórmula de felicidade e moralidade que adota para si.

O fundamento teológico da retrodoxia matrimonial justifica-lhe a intolerância: há que se cumprir o ditame divino, rigorosamente como a deidade o dispensou aos humanos. É claro que, como convém, relevam-se, estrategicamente, os amores homossexuais de Davi e Jônatas, e de Raquel e Noemi.

Os adeptos da retrodoxia alarmam-se com a modificações naturais por que passa o casamento; aparentemente, sentem-se ameaçados e inseguros. Recusam-nas, intelectualmente, em nome do seu fundamento teológico. Temem-nas, intimamente, por viverem matrimônios frágeis ? Bradam contra elas, por que, veladamente, praticam-nas ?

Em termos positivistas (do Positivismo de Augusto Comte), a retrodoxia sustenta, a todo transe, a ordem, vale dizer, as condições de existência da sociedade e das suas instituições, como a família e, nela, o casamento. A retrodoxia recusa, a todo transe, o progresso, vale dizer, as modificações naturais e espontâneas que sofrem as condições de existência da sociedade e das suas instituições. Há que preservar o bom e melhorar o necessário: eis a fórmula do conservadorismo positivista, conservadorismo progressista, em que se conciliam a ordem e o progresso.

A retrodoxia sempre consistiu em ater-se à ordem, sem progresso que, por ocorrer na sociedade, inelutavelmente, torna as opiniões retrodoxas precisamente no que sóem ser: arcaicas, ultrapassadas pela evolução dos fatos.

Constitui mensagem do Positivismo valorizar a ordem e aceitar o progresso; conciliá-los e manter a sociedade em permanente modificação criteriosa.

Há uma diferença crucial entre a forma mental da retrodoxia e a do Positivismo: aquela fundamenta-se na alegada palavra divina, revelada aos homens, e transmitida nos textos bíblicos e na doutrina; este fundamenta-se na observação da realidade humana, da natureza humana e dos fenômenos coletivos, tal como no-lo fornecem os conhecimentos da sociologia, da psicologia, da antropologia, da história.

No fundo, cuida-se do contraste geral entre teologia e humanismo, entre teocentrismo e antropocentrismo; entre a cosmovisão teológica e a secular.

O contributo do Positivismo consistiu em positivar (nelogismo de Augusto Comte) o entendimento dos fenômenos coletivos e individuais, mercê da criação da sociologia e da psicologia, até então inexistentes como domínios autônomos do saber e cujas matérias achavam-se incluídas na teologia e na metafísica, ou seja, explicavam-se os fenômenos coletivos e individuais por critérios, em alguma medida, dependentes da divindade (cristã) ou da imaginação, ao passo que a obra de Comte elevou a positividade (espírito de observação da realidade), já presente na matemática, na física, na química, na biologia, à sociologia e à psicologia, que criou.

Com isto, libertou o entendimento de instituições como a família, da sua dependência de versículos da Bíblia e da respectiva interpretação; ele secularizou-lhes o entendimento, até então jungido à ordem imóvel, e permitiu a compreensão do seu progresso. Eis por que doutrinas secularistas, como o Positivismo (e como a teoria da construção social) representam, em termos, ameças à retrodoxia: elas fornecem premissas ateológicas e não absolutas; por outra, premissas humanas e relativas que resultam em conseqüências atentas à vida das pessoas e não aos textos canônicos.

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Imagens.

Letra de Comte.

Autógrafo de Comte. 1854.

Centro positivista da Chapel Street, de R. Congreve.

Centro positivista da rua Chapel, fundado por Ricardo (Richard) Congreve, em Londres.

David Carneiro e Turim.

David Carneiro (à dir.), paredro do Positivismo em Curitiba, e João Turin, escultor, na inauguração do monumento a Benjamin Constant, em Curitiba.

A. Comte morto. Heliografia.

Augusto Comte jacente. Heliografia. 1857.

Newton Hall.

Centro positivista de Newton Hall, Londres.

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Bandeira republicana do Brasil.

O Templo da Humanidade, da Igreja Positivista do Brasil, fornece, eletronicamente, o opúsculo de Raimundo Teixeira Mendes, autor da bandeira republicana do Brasil, a respeito dela. Explica-lhe a concepção e refuta-lhe os críticos. Aceda ao texto por aqui.

A bandeira nacional.

 

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